A vida superficial
É a raiz da confusão interior e a perda de identidade.
Hoje vivemos um tempo em que as pessoas estão tão perdidas de si mesmas, tão desconectadas de quem são — como talvez nunca tenha havido. Há uma desconexão endêmica, onde já não conseguem responder a uma simples pergunta como: “Quem é você?” sem começar falando pela profissão.
Tente responder essa pergunta sem começar dizendo o que você faz ou o que você gosta. Talvez você perceba que não sabe o que responder — porque aprendeu a se reconhecer por coisas externas a você.
Não que seus gostos, sua profissão ou qualquer outro detalhe sejam irrelevantes. Não são, pois também compõem a sua história. O problema é você só conseguir se descrever por eles.
O que sobra de você se tirar o que você faz ou o que você gosta?
Digo isso porque se descrever com essa superficialidade tira a estrutura do seu ser. Cristaliza a sua personalidade a algo externo.
Você não se torna outra pessoa caso seus gostos mudem, ou algo o impeça de exercer a sua profissão. E cedo ou tarde isso vai acontecer. Esses papéis mudarão ou desaparecerão, e então você não saberá mais quem é.
Eu tenho a oportunidade de conviver com muitos aposentados ou recém-aposentados e, com impressionante e triste frequência, vejo que muitos deles se tornam pessoas deprimidas e perdidas. Passam a viver uma confusão interna sobre a própria vida, sem saber o que fazer ou o que sentem.
Todos eles sentem que se perderam de si mesmos e tentam tapar esse vazio com mais trabalho, ou ficam “inventando moda” com a própria vida, numa tentativa desesperada de pertencimento.
Viver com profundidade sobre a própria história não é luxo ou enfeite. É que, sem ela, você não se reconhece e vai viver uma história que não é propriamente sua.
Viver na superfície da própria história tem um preço: você perde o contato com a própria essência. E é isso que te faz viver desconectado de quem você é. Se você não sabe quem realmente é, se não conhece a sua própria essência, inevitavelmente vai manter relações — amorosas ou não — por hábito e não por vontade ou afinidade. Vai aceitar viver em situações abusivas por se sentir preso a algo que não sabe nomear.
Isso vai te fazer viver em uma confusão emocional, sem saber nomear exatamente o que sente e vivendo refém do que é externo — porque se tirar isso, é o mesmo que tirar a própria identidade.
Normalmente, essa falta de conexão consigo mesmo é facilmente identificada pelo que você sente quando não há distrações. O que você sente quando não pode se distrair?
Quanto tempo você é capaz de ficar sozinho consigo mesmo, sem celular, música, livros… sem trabalhar, sem produzir. Apenas você e… você.
Vivendo assim, você pode até conseguir manter uma vida cheia de coisas, mas ela será sempre vazia de si mesmo.
Viver na superfície é confortável, porque você não precisa encarar a própria sombra — que pode ser pavorosa para alguns. O problema é que ela é sempre rasa demais para dar sentido a uma vida. Fugir dessa profundidade é como fugir de si mesmo, fugir de quem você realmente é.
Quem vive na superfície da vida humana, cedo ou tarde vai se confundir com o que faz, com o que tem, com os papéis que representa ou os rótulos que adota. Não que isso não faça parte da sua história, mas eles não podem assumir o eixo central da sua narrativa. Porque, se tudo isso cair, vai sobrar o quê?
Uma vez eu fiz essa pergunta a uma pessoa. Perguntei: se tudo o que é material lhe fosse tirado, o que sobraria? Com os olhos marejados, ele disse: “Nada.” Foi ali que houve uma virada, e a busca por um sentido real começou.
É preciso coragem para iniciar essa busca. Coragem de sustentar o silêncio diante do mundo. Coragem de encarar a própria sombra. Coragem de assumir a verdade de quem você é — mesmo que doa. Coragem de viver sem máscaras. Só aí nascerá a verdadeira identidade.
Você precisa decidir: continuar boiando na superfície ou mergulhar na profundidade de quem você é, e viver com sentido.



