Ontem, estava com alguns amigos e, como um bom melancólico que sou, estava em silêncio em um dos cantos da roda — se é possível dizer que uma roda tem cantos — apenas ouvindo o que eles falavam.
Entre conversas sérias, piadas e silêncios, uma colega — com quem tenho menos afinidade — comentava sobre sua tatuagem. Eu já havia notado há tempos, mas não sou de perguntar coisas pessoais a ninguém — a não ser que seja meu paciente em terapia.
Vou tentar descrevê-la: é uma frase, com acabamento fino e letra cursiva, milimetricamente posicionada no centro do pescoço, passando por cima do pomo de adão — se ela tivesse um, mas não tem, eu me certifiquei — e em linha reta na direção gravitacional natural de tudo o que coabita esse mundo, até chegar... bom, você pode imaginar onde.
Ao vê-la comentar sobre a dimensão da tatuagem, tomei a ousadia de perguntar qual era a frase. Não vou me lembrar dela por completo, mas a primeira parte ficou gravada em minha mente — talvez até fosse a frase inteira:
“Nenhum organismo vivo pode continuar existindo por muito tempo, com sanidade, em condições de realidade absoluta.”
Perguntei se não se importava em repetir, pois não havia entendido direito — ela tem cerca de 1,70m, então você pode imaginar que a frase, para percorrer toda a extensão da distância latitudinal, tem um tamanho considerável — o que, sinceramente, não ajudou muito. Então, não pedi mais. Mas essa primeira parte me gerou uma inquietação.
Perguntei, então, se ela realmente acreditava no que a frase dizia. Prontamente, e com o peito estufado, ela disse que sim. Comentei que era interessante e pedi para que ela me explicasse o que era a realidade.
A partir daí, foi ladeira abaixo.
Ela, com toda boa intenção do mundo, tentou me explicar que cada um vive uma realidade individual, e que ter consciência da total realidade do mundo deixaria qualquer um louco.
Nesse momento, percebi que o que já era ruim conseguiu piorar, pois, além de querer pontuar que existem frações de realidade, ela completou dizendo que cada um vive uma realidade.
Vou poupá-los do trabalho de acompanhar essa conversa em detalhes, mas, em resumo, discutimos diversos conceitos filosóficos. Apresentei para ela a ideia de “circunstância” e mostrei como, filosoficamente, a realidade é sempre uma só. Não é possível vivermos “realidades diferentes”, apenas circunstâncias diferentes dentro de uma mesma realidade.
(P.S.: posso adiantar que ela fez uma expressão de certo desapontamento, dado que o Meridiano de Greenwich não é algo simples de apagar, e menos ainda de cobrir.)
Mas fiz você perder um pouco do seu tempo lendo essa história para falar sobre um problema muito sério: não entender como as coisas funcionam pode ser a causa de quase todo sofrimento.
Quando você acredita que vivemos realidades diferentes, está dizendo, sem perceber, que cada um vive em um mundo próprio.
Mas, se cada um vive em um mundo próprio, como poderíamos coabitar o mesmo espaço de forma que fôssemos capazes de compreender uns aos outros, sem que cada pessoa precisasse explicar como a sua realidade particular funciona?
Ou pior: como duas pessoas totalmente diferentes, morando em lugares distintos, podem viver “realidades” tão parecidas, a ponto de se reconhecerem profundamente uma na outra?
Então eu penso: se não há, de fato, realidades diferentes, tampouco pode haver realidade relativa.
Porque, no final das contas, a realidade é o que é — e por isso ela é sempre absoluta.
A questão, portanto, não está na realidade, mas nas projeções que fazemos diante dela.
As interpretações, traumas, filtros emocionais, crenças limitantes — esses são os responsáveis por distorcer o real.
A insanidade não nasce do excesso de realidade, mas da constante vontade de fugir dela.
Todos estamos conectados, de alguma maneira, dentro de uma mesma realidade. Mesmo vivendo circunstâncias diferentes — e não “realidades diferentes”, como nossa amiga acredita (ou acreditava).
Todos estamos vivendo dentro da grande cadeia do Ser — uma ordem simbólica, cósmica, hierárquica — que não nos oprime, mas nos tranquiliza.
A sanidade não exige que fujamos da realidade, mas que a aceitemos como ela é.
O grande mal das pessoas hoje — sobretudo das que sofrem — é acreditarem que é possível viver em “realidades particulares”, alimentadas por narrativas internas, ilusões emocionais e negações conscientes.
Ou não é exatamente isso o que acontece quando uma mulher carente entra em um relacionamento abusivo, e todo mundo vê que vai dar errado... menos ela?
Ela acredita, com todas as forças, que está vivendo “outra realidade”, que ele é “outra pessoa”, e que o que os outros veem não é o que ela vive. Mas é.
Não é a realidade que acabará com a sua sanidade — são as mentiras que você conta a si mesmo que estão te adoecendo.
Por isso, eu digo a você — e disse à moça tatuada: o caminho da verdadeira sanidade está em olhar, e aceitar, a realidade como ela é.
Porque, bom… ela é.
Não tema perder a sanidade por encarar o real — tema adoecer por fugir dele.
A realidade nem sempre é agradável, mas é sempre verdadeira.
Então, volte. Respire. Veja o que está diante de você.
A realidade, mesmo dura, é o único chão firme que você tem.
Vou encerrar essa carta com a mesma frase com que encerrei a conversa com nossa amiga:
“Acredite mais no que os seus olhos estão vendo do que no mundo que está na sua cabeça… porque os seus olhos veem a realidade — e a realidade não mente.”
Um abraço,
Felipe



