Sonhos e inconsciente
Uma viagem onírica, um encontro entre narrativas e um lembrete da força silenciosa que nos conduz ao próprio eixo.
Cheguei aqui no Substack há pouco tempo, e fui agraciado de ter contato com pessoas cujos temas de interesse ou formas de escrever muito me agradaram. Falando sobre coisas que eu mesmo falaria, ou até sobre coisas que eu gostaria de falar mas não tenho capacidade para isso.
Coincidentemente logo descobri a possibilidade de produção em coautoria, e logo pensei:
“Por que não convidar essas pessoas para falar um pouco aqui?”
Então enviei algumas mensagens, via direct, para essas pessoas, fazendo um convite para que elas fizessem uma publicação aqui no Entre Corpo e Alma. Algumas aceitaram, algumas não, outras sequer responderam, mas isso não importa.
O que importa é que a Naara | Tarot e Astrologia aceitou, uma pessoa que me chamou atenção pela profundidade de seus textos e das várias camadas que eles têm, e a estranha — talvez agora, não tão estranha assim — coincidência de forma de pensar e ver o mundo que se assemelha mundo à minha.
Fiz o convite, e deixei totalmente livre para que ela trouxesse o que sentisse no coração, e o resultado é o texto que vocês lerão a seguir.
Só peço para que leiam com calma, atenção e livre de qualquer pré-conceito.
Eu estava com minha mãe e uma amiga dela. Essa amiga, que não vejo há anos, estava bem empolgada e nos chamou para entrar em seu carro para uma viagem. A cena parecia uma aventura súbita, quase improvável. Ela dirigia toda feliz, contrastando com o absurdo da situação para mim. Eu nem me lembrava da existência dela, muito menos de que ela dirigia, mas a fluidez daquele momento me empurrava, como se eu não tivesse escolha, e então entrei.
Fui no assento traseiro e, de repente, vi que ela tinha trazido suas filhas. Elas foram minhas amigas na infância.
Eu ali adulta, e elas ainda crianças. O impacto foi imediato!
Trocamos carinhos e muitas brincadeiras. Era como se eu voltasse a ser aquela menina e, ao mesmo tempo, como se um amor amadurecido explodisse dentro de mim, exatamente como me sinto quando brinco com meus filhos. Aquela cena era uma casa emocional onde eu poderia morar para sempre.
Ali eu soube, com uma nitidez que até doeu, que nasci para amar aquelas meninas. Essa certeza me trouxe de volta para mim mesma, como se dissesse: você ainda está aqui, mesmo nessa viagem insana que se propôs a fazer sem entender para onde ela levaria e isso me deixou segura.
Minha mãe era uma figura silenciosa e marcante. Não era a protagonista, mas sua presença guiava tudo. Talvez ela seja mesmo o canal da minha experiência, e talvez eu só precise honrá-la escolhendo por mim, e não de forma inconsciente.
Seguimos viagem e ingressamos em uma rodovia em alta velocidade. Era aquele período em que o dia se torna noite, os tons laranja contrastando com o marrom e azul bem escuro. Olhando pelo vidro, vi várias chácaras onde pareciam acontecer rituais. Grupos reunidos, comunidades inteiras conectadas a algo. As vozes começaram a surgir, nítidas, como se fossem mensagens destinadas a mim. Eu não conseguia reter o que diziam, apenas sentia que falavam comigo. Então a experiência ficou densa, confusa, como se eu estivesse atravessando portas. Passamos por umas quinze chácaras até que ouvi uma voz que me paralisou. Era meu pai.
Ele estava em uma chácara linda, com muros de folhagem, meia-luz, um ambiente acolhedor. A riqueza dos detalhes me surpreendia, mesmo com o carro em movimento. Eu conseguia ouvi-lo e contemplar o lugar ao mesmo tempo. Foi aí que pedi para que parassem o carro.
Ao descer, percebi que minhas roupas estavam estranhas. Uma blusa transpassava de trás para frente, outra sobrepunha de frente para trás. Meus cabelos estavam bagunçados, cobrindo meu rosto. Só notei esses detalhes quando encontrei um espelho na entrada do local, e me vi como alguém que não reconhecia a si mesma, mas o que me confundiu é porque eu não estava assim antes de descer ali, enfim... Antes que eu organizasse qualquer coisa, meu pai veio em minha direção. Ele não me reconheceu. Esse já foi o primeiro impacto emocional.
Ele me cumprimentou e eu travei. Lembro da sensação física de não conseguir abrir os olhos, agonia, agonia e agonia.
Eu não conseguia falar, nem gesticular, apenas andar.
Ele se aproximou, disse que era líder espiritual (ele é pastor). Começou a beijar meu rosto, como se quisesse se exibir, como se buscasse me impressionar. Ele não percebia que eu estava imóvel, que meus olhos estavam fechados, isso também trouxe muita aflição, ele parecia completamente inconsciente de mim.
Quando veio me beijar os lábios, o desespero me engoliu. Uma percepção cortante tomou forma: ele não sabe quem eu sou, mas eu sei quem ele é. Sei que esse beijo é, no mínimo, inescrupuloso. Preciso agir com base no que sei.
Saí correndo e atravessei a pista para encontrar minha mãe e os outros. Foi como sair de um transe. Quando contei o que aconteceu, uma moça disse que já tinha vivido a mesma coisa. Era como se aquele abuso fosse um padrão, um ciclo repetido. Conversamos e eu me acalmei, como se a validação dela me devolvesse ar. Esse pareceu ser o fim daquela etapa da viagem, ou ao menos até onde consigo me lembrar.
Em seguida, me vi em um píer com muitas pessoas. O céu estava chuvoso e cinza, e uma fila se formava diante de um barco parado. As pessoas usavam o barco como um degrau para alcançar a continuação do píer, como se aquilo fosse óbvio. Eu observava tudo paralisada. Não gostava da ideia de subir aquele degrau e comecei a me perguntar se aquilo era realmente necessário. As pessoas começaram a perder a paciência. Quando finalmente subi, travei de novo. Gritavam comigo, vai logo, só você não vai, por que você é tão medrosa? Aquilo me atravessou. Então recuei. Desci. E, ao olhar para o lado, vi uma passagem totalmente livre atrás da pilastra. Tão simples. Tão evidente. E ninguém via.
Segui por ela, sem fila, sem barulho, sem cobrança. E, pela primeira vez na viagem, senti que aquela suposta desistência era, na verdade, minha bússola interna me devolvendo a direção.
Esse caminho me levou a uma cabana. Lá encontrei uma amiga que vou dar o nome de “Sombra”. Sempre foi querida, mas algo em nós se perdeu com o tempo, e no sonho isso se revelou.
Ela estava escrevendo um relato no computador, criando conteúdos para redes sociais. Li e achei sensacional. Minha mente borbulhava com tudo o que eu havia vivido, então sentei e comecei a criar também. Quando terminei e estava prestes a postar, ela comentou que nunca se cria e posta no mesmo dia. Me mostrou uma lista enorme de conteúdos guardados. Parecia apenas uma dica até que ela acrescentou que era bom se planejar, ainda mais porque Naara não é um nome muito comum, e isso poderia gerar um impacto negativo. E então percebi o salto: de um simples post para a crítica ao meu nome, à minha identidade. Um golpe sutil e profundo.
Senti todas as sensações juntas: A pressão, a dúvida, a confusão de ver algo que antes parecia tão certo se dissolver em regras, normas, exigências do que eu deveria ou não ser.
Essa foi a última lembrança do sonho.
Ao acordar, tirei cartas do tarot para refletir sobre a noite intensa que vivi. As cartas mostraram uma liberação profunda de travas inconscientes. Sensações que experimentei ao longo da jornada, que me prendiam em ciclos repetitivos, apareceram ali, expostas, para que eu pudesse finalmente vê-las. A viagem com a motorista improvável, as delícias do caminho, as formas de culto, a escolha por mim diante da inconsciência e do abuso paterno-espiritual, a pressão e a crítica por seguir meu próprio caminho.
Tudo convergia para um mesmo lugar: a manifestação do inconsciente para a cura.
Antes de continuar, quero pedir para você compartilhar essa publicação, se achar que ela vale, e que pode ser interessante para alguém que você conheça, isso é importante para o nosso trabalho.
Agora, com a expressa autorização dela eu vou tecer um breve — ou não tão breve assim — comentário sobre esse texto dela.
Alguns sonhos são tão complexos que parecem filmes: começam leves, se aprofundam, atravessam portais, revelam tensões, e terminam com um símbolo que permanece vibrando mesmo depois que você acorda.
E, curiosamente, quanto mais rica a narrativa, menos ela fala sobre imagens, e mais sobre estrutura interna de cada um.
Esse tipo de sonho não surge do nada.
Ele aparece quando a alma está madura o suficiente para reorganizar conteúdos que estavam dispersos: a criança que ficou esquecida no tempo, as forças que moldaram a identidade, as pressões externas, a sensação de congelamento frente ao abuso emocional, a crítica que paralisa, e o momento exato em que a pessoa finalmente encontra o caminho que é só dela.
Na psicologia, chamamos isso de processo de integração.
Na abordagem homeopática que utilizo, isso toca aquilo que chamamos de tema vital — o padrão central que organiza a experiência humana: como a pessoa reage ao mundo, como congela, como cede, como percebe invasões, como tenta manter-se inteira mesmo quando pressionada por expectativas externas. É como se o sonho trouxesse à tona a “música de fundo” da vida daquela pessoa.
Vistos dessa perspectiva, certos elementos do sonho ganham forma:
O reencontro com a infância não é nostalgia — é memória essencial do eu.
A figura que invade sem perceber não é só personagem, é símbolo de um padrão antigo de violação emocional.
A paralisia não é fraqueza, é a expressão somática do congelamento psíquico.
A pressão da multidão representa a força coletiva tentando impor um caminho único.
A crítica à identidade expõe a ferida mais sensível: o direito de existir como se é.
E a passagem silenciosa atrás da pilastra é o ponto de virada, o momento em que a vida deixa de ser reação e começa a ser escolha.
Tudo isso, junto, não é apenas um sonho.
É a narrativa de uma alma mostrando para si mesma onde estão as amarras… e onde está a libertação.
Do ponto de vista homeopático, esse tipo de sonho é um presente.
Ele revela um conflito vital muito claro: entre ser moldada pelos outros e seguir a própria bússola; entre congelar diante do abuso emocional e finalmente se mover por conta própria; entre carregar identidades herdadas e recuperar a identidade original.
Quando traduzimos isso para a linguagem da homeopatia, não estamos procurando “um remédio para o sonho”, mas um remédio que fale a mesma língua desse padrão: alguém que se sente invadido, confundido, silenciado, pressionado a caber em formas externas — e que, ao mesmo tempo, guarda dentro de si uma força muito própria pedindo passagem.
Em termos técnicos, seria o tipo de remédio do reino vegetal, usado justamente para pessoas extremamente sensíveis ao ambiente, que sofrem com invasões de limite, manipulação emocional e pressão moral, e que precisam reencontrar o seu eixo interno para deixar de viver em função do olhar do outro.
E é simbólico — quase poético — que a solução não apareça como uma grande revelação.
Não envolve enfrentar ninguém, lutar contra ninguém, provar nada.
A solução aparece como uma passagem discreta, simples, leve… um caminho que só precisa ser enxergado.
É assim que o inconsciente cura: não impondo, mas revelando.
Por isso, quando um sonho desse tamanho aparece, a melhor pergunta não é “o que significa?”, mas “o que ele está tentando reorganizar dentro de mim?”.
Novamente, todo comentário aqui feito foi expressamente autorizado pela própria Naara | Tarot e Astrologia. Com isso encerro essa publicação fazendo dois convites:
O primeiro é para que vocês conheçam a Naara, e se inscrevam na News dela. Ela tem um conteúdo realmente muito rico e profundo que se absorvido com calma, em muito pode ajudar vocês.
O segundo é para que vocês se inscrevam aqui e continue apoiando o meu trabalho.




